Trazer mudanças para a vida – fazer como o agricultor

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Quando alguém sente que está num impasse na sua vida, que poucas coisas novas ou agradáveis lhe acontecem e que não consegue perspetivar o futuro com motivação, é normal que lhe digam para fazer planos e projetar minuciosamente aquilo que quer realmente atingir. Mas, e se o caminho for outro?

É essa proposta de “caminho alternativo” ao que é habitualmente defendido nestas situações que partilho aqui. Trata-se de um excerto do livro O Caminho da Vida, de Michael Puett e Christine Gross-Loh, que nos dá uma outra perspetiva sobre esta situação. A obra faz uma síntese de algumas lições de filósofos chineses que nos desafiam a olhar para o mundo e para as verdade atuais de outra forma. Com muito mais pragmatismo e lucidez. Ora vejam só:

 

Quando tomamos grandes decisões racionalmente, baseados na ideia de que o mundo é coerente, assumimos uma situação clara, possibilidades claras, um eu estável, emoções inalteráveis e um mundo imutável. Mas essas coisas não são certezas absolutas. Quando faz planos concretos e definidos, na realidade está a ser abstrato, porque está a fazer esses planos para um eu que é abstrato: um futuro eu que imagina, baseado em quem julga ser nesse momento, muito embora você, o mundo e as suas circunstâncias venham a alterar-se. Afasta-se das complexidades reais e confusas que são a base a partir da qual se pode desenvolver como ser humano. Elimina a sua capacidade de crescer como pessoa porque está a limitar esse crescimento àquilo que faz parte dos melhores interesses da pessoa que é no momento, e não da pessoa que virá a ser.

Se, em vez disso, mantiver uma consciência constante de que o mundo é instável, pode começar a pensar em todas as suas decisões e reações com base num conhecimento do mundo complexo e em permanente mudança e no seu eu complexo e em permanente alteração. Pode treinar a sua mente para permanecer aberta e ter em conta todas as coisas complexas que constituem a sua pessoa. Alcançamos os melhores resultados quando pensamos nas coisas em termos de trajetórias a longo prazo. As decisões mais alargadas vêm como resultado de prepararmos o terreno para que as coisas possam crescer.

(…)

Ser ativo consiste em criar as condições ideais e reagir a todas as situações que surjam. Significa preparar o terreno em que a mudança se pode desenvolver. Pense que é um agricultor, em vez de pensar naquilo que é e organizar os seus objetivos a partir disso. O seu objetivo passa a ser preparar o terreno para que variados interesses e facetas suas cresçam naturalmente.

Quase todos temos passatempos e interesses pessoais que praticamos ao fim de semana ou nos tempos livres. Muitas vezes não pensamos que essas coisas tenham importância para calcular aquilo que queremos fazer na vida. Contudo, preparar o solo significa algo tão simples como organizar o tempo para tomar parte em atividades que dizem alguma coisa às diferentes facetas da sua pessoa que está interessado em desenvolver: participar num curso de provadores de vinho, aprender a pintar a aguarela, ou rever o seu francês do secundário uma vez por semana, numa permuta de línguas. Arranjando antecipadamente espaço  na sua vida para toda a espécie de possibilidades, e mantendo-se depois aberto e pronto a reagir, será semelhante a um agricultor que prepara o seu campo de maneira que as suas colheitas prosperem.

Ao criar espaço para interesses pessoais, surgem-lhe oportunidades. Poderia ficar a saber que adora trabalhar com as mãos, mas que seria melhor experimentar a carpintaria do que a pintura. Ou conclui que o francês não lhe diz nada, e que prefere explorar outras culturas, oferecendo-se para ensinar imigrantes na biblioteca pública, o que poderia abrir caminho para outras coisas: novos amigos, uma viagem ao estrangeiro, com uma mudança de carreira pelo caminho. Se estiver pronto a reagir à forma como os seus interesses pessoais mudam com o tempo, não ficará preso – estará mais apto a alterar a sua vida e o seu programa para permitir o crescimento.

(…) Não sabe onde tudo isto o pode levar; por enquanto não é possível saber isso. Mas o que aprende acerca de si e daquilo que o excita não será abstrato; será um conhecimento muito concreto, nascido da experiência prática. Com o tempo, abre caminhos que nunca podia ter imaginado, dos quais emergem opções que nunca teria visto antes. Com o tempo, torna-se realmente uma pessoa diferente.

Não pode planear a maneira como tudo na sua vida se desenvolverá. Mas pode pensar em termos de criar condições para que as coisas tenham hipótese de se movimentar em determinadas direções: as condições que permitam que seja possível um bom crescimento. Fazendo tudo isto, não está simplesmente a ser um bom agricultor. Será também o resultado do trabalho do agricultor. Torna-se o fruto do seu trabalho.

Michael Puett e Christine Gross-Loh, in O Caminho da Vida – O que os filósofos chineses nos podem ensinar sobre a arte de bem viver, Lua de Papel, 2016, pp. 92-96.

 

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Sobre o autor:

Be You Reiki – que escreveu artigos no BeYou Reiki.

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